Cadeias curtas
Para os dois responsáveis da marca, os portugueses cada vez mais querem saber a origem dos alimentos adquiridos e valorizam o produtor local. Há uma pressão crescente sobre o retalhista para um apoio à produção nacional e a redução do desperdício alimentar. A resposta a estes desafios passa pelas chamadas cadeias de abastecimento curtas, que aproximam a origem do consumo.
“Tudo muda com produtores locais”, admite Nelson Dinis. Quando se trabalha com um grande fornecedor industrial, há normalmente um único ponto de recolha. O camião sai, carrega tudo num só sítio e segue para o entreposto. A operação é mais simples e mais rápida de organizar.
Mas quando se opta por produtores locais, espalhados pelo País, a operação implica muitos pontos de recolha, muitos horários a conciliar, muitos volumes diferentes. É preciso desenhar rotas complexas, agrupar produtores por zonas, adaptar a frota, ajustar horários. A logística fica mais difícil, mas há um ganho na qualidade e proximidade. “Podemos acompanhar o produto desde a origem”, explica Nelson Dinis.
Tecnologia decisiva
Nos frescos, o relógio manda. “Uma hora pode fazer a diferença”, recorda o responsável. Para a mercadoria chegar rapidamente ao destino, a logística tem de conhecer bem a realidade dos produtores e das lojas. É preciso saber quando a produção está pronta, quando se pode recolher, a capacidade dos armazéns, as janelas horárias das lojas e ainda ter margem para imprevistos.
A complexidade da máquina transformou a tecnologia numa ferramenta “indispensável” à gestão de todo o processo, devido aos sistemas automáticos para controlar stocks, entradas, saídas, temperaturas, rotas e prazos.
Nos armazéns, sistemas de gestão indicam onde está cada produto, para onde vai e quando tem de sair para cumprir as datas de validade. A automação e o controlo por código de barras e terminais móveis fazem parte do trabalho diário.
Na estrada, a tecnologia também manda. O grupo renovou a frota de frio, com camiões que permitem controlar, ao minuto, a temperatura do semirreboque. Antes de carregar, é possível confirmar se o veículo está higienizado e se a temperatura é a correta. Durante o transporte, a central acompanha tudo à distância. Se houver um desvio de temperatura, dispara um alerta.
“A grande diferença está em sermos proativos e não reativos”, explica Nelson Dinis.
Cada produto traz consigo um rasto de detalhes: quem produziu, quando, onde, como foi transportado, a que temperaturas esteve, que lotes integra. “A informação é o maior desafio”, reconhece Nelson Dinis.
Em Portugal, a rastreabilidade, o bilhete de identidade de um produto, tem dado passos gigantes. Através de códigos QR e outros sistemas é possível seguir o produto do início ao fim. Por isso, a exigência máxima é um lema do Intermarché. Na receção da mercadoria, se a documentação não estiver em ordem, se os dados não forem fiáveis ou as normas não estiverem cumpridas, o produto é rejeitado à partida. “Estes dados são essenciais para a segurança alimentar e, sobretudo, para ganharmos a confiança do consumidor”, frisa Nelson Dinis.
No Programa Origens do Intermarché, cinco técnicos no terreno visitam semanalmente os produtores, verificam práticas agrícolas, confirmam registos e garantem o cumprimento das normas. Além disso, empresas certificadoras externas validam as boas práticas.
Para o consumidor, esta informação está à distância de um telemóvel ou etiquetas detalhadas. Para alguns, bastará ver a origem. Para outros, será importante saber o tipo de produção, o nome do produtor ou a data exata de colheita. “A breve prazo, será um fator-chave nas escolhas do cliente”, acredita João Araújo.
O equilíbrio do preço é outra preocupação na relação entre o Intermarché e os produtores. O objetivo da marca é oferecer frescos com qualidade acima da média ao melhor preço do mercado, sem pôr em causa a atividade de produção. “Não queremos estrangular os produtores com um preço muito baixo que não permita sobrevivência a médio prazo”, garante João Araújo.