O resultado é uma bebida láctea, energética, produzida a partir do reaproveitamento integral do soro de leite de cabra. “É benéfico para a queijaria porque este subproduto passa de um custo a uma fonte de receita. Não há desperdício, é uma mais-valia para todos”, conta a empresária. “Não tenho dúvidas de que sou pioneira numa bebida de soro de leite de cabra em Portugal.”
A bebida integra ingredientes naturais, como estévia e farinha de alfarroba, refletindo uma preocupação com a saúde e a sustentabilidade. Ainda assim, o desenvolvimento técnico continua a decorrer, conforme explica a vencedora da categoria: “Já cheguei ao produto final, mas agora o desafio é aumentar a validade. Sendo natural e sem conservantes, tem de estar sempre no frio. Neste momento consigo cerca de um mês, mas espero poder prolongar.”
A escolha da embalagem é outro obstáculo. Susana Carrolo prefere utilizar garrafa de cartão, mas não encontra soluções viáveis na Europa, para pequena escala. O vidro permitiria maior durabilidade, com esterilização no próprio recipiente, mas o projeto pede domínio do natural e sustentável.
Escolha certa
Durante anos, as soluções para a reutilização do soro de leite de cabra implicavam o uso em rega ou na alimentação animal, mas atualmente existem restrições legais e operacionais, que se estendem a alternativas como a instalação de uma ETAR. “Tem custos elevadíssimos e uma queijaria de pequena ou média dimensão não tem margem para isso. Existem empresas que fazem recolha, mas apenas em grandes quantidades, o que obriga a armazenamento, um outro problema para estruturas pequenas”, acrescenta Susana Carrolo.
O projeto nasceu de um percurso de duas décadas na caprinicultura. A empresária conta que se iniciou há 20 anos, com o irmão Pedro, ambos zootécnicos. São sócios-gerentes da Quinta da Beata, localizada em Abrantes. A queijaria surgiu há uma década, quando se apaixonou pela arte do queijo, se «colou aos melhores» para aprender e fez formações que se alargaram à Argentina. Atualmente, a Queijaria Brejo da Gaia é reconhecida pela produção artesanal com leite cru de cabra e já soma sete medalhas internacionais. É reconhecida pela aposta na qualidade e sabores tradicionais, garantindo produtos autênticos.
A qualidade começa na origem, segundo Susana Carrolo. “O principal ingrediente está no leite. Se tivermos um leite higienizado e com bem-estar animal, temos tudo. As minhas cabras, as minhas princesas, são bem tratadas, têm boa alimentação. Isso reflete-se diretamente no produto.”
A candidatura da queijeira ao Prémio Intermarché surgiu quase por acaso, ao ouvir as referências ao concurso na televisão, entre a CMTV e o NowCanal, como faz questão de referir. Não é a primeira experiência de Susana Carrolo, que, em 2018, venceu na categoria de Inovação, com um queijo kefir.
Mais do que o reconhecimento, a vencedora encara a distinção do Intermarché como uma oportunidade de crescimento. E reforça: “Espero que me ajude a transformar o leite de cabra e a pôr a queijaria a funcionar a 100%. Quero vender mais e consolidar o projeto. Gostava ainda que os jovens olhassem para o nosso exemplo. Trabalhamos 365 dias por ano, mas o amor aos animais e à natureza compensa.”
De um subproduto problemático nasceu uma solução sustentável e economicamente viável, que pode abrir caminho a novas práticas no setor. “O prémio é a prova de que vale a pena. Começámos do nada, com 120 cabras, passámos por muitas dificuldades, mas fizemos a escolha certa”, conclui Susana Carrolo.