À frente da empresa familiar Frutas Quinta da Fadagosa, Gonçalo Batista reforça que se está a tornar “cada vez mais difícil” garantir a sustentabilidade económica de um setor pressionado pela “aplicação de todos os custos inerentes à produção, às certificações, à tecnologia, embora neste caso até se acrescente valor”.
Entre os retalhistas, o Intermarché “é o que tem melhor postura e atitude para com a produção”, segundo Fernanda Machado. Ciente das dificuldades, o Intermarché procura assegurar “um preço justo” numa cadeia de produção que reflete as exigências do mercado, nas palavras da responsável do Programa Origens, Sofia Hartley. “Não temos em conta o preço. Temos em conta padrões de qualidade, formas de produção, a profissionalização do setor”.
Mão de obra é a principal dificuldade
A BFruit, organização de produtores fundada em 2013, reúne atualmente mais de 60 membros e dedica-se aos pequenos frutos – framboesa, mirtilo, amora e groselha –, a partir de Odemira. A escolha do território decorre das condições de clima, solo e água, embora estas últimas estejam sujeitas a condicionalismos imponderáveis.
Ainda assim, a principal dificuldade é a mão de obra. Trata-se de uma atividade de colheita no momento certo e com rapidez, sob pena de perdas de rentabilidade. Para isso, é necessário um número muito elevado de trabalhadores, o que é cada vez mais difícil de assegurar. “Este tipo de trabalho é duro e muito exigente do ponto de vista humano”, explica Fernanda Machado. Por isso, o setor está dependente de mão de obra estrangeira, proveniente de países como Nepal, Bangladesh, Paquistão e Índia.
A mesma dificuldade é sentida por Gonçalo Batista nos 70 hectares de produção de cereja, pêssego e nectarina, uma atividade totalmente sazonal: “De ano para ano, é mais difícil encontrar mão de obra, especialmente no período de colheitas. É um trabalho de alguma exigência física. Trabalhar com temperaturas como as atuais não é propriamente fácil. Nem toda a gente tem essa capacidade”.
Menos armas contra as pragas
A mão de obra não é o único problema comum. Fernanda Machado alerta para as crescentes exigências ambientais e de segurança alimentar, que têm limitado o uso de alguns fitofármacos. Com 85 por cento da produção destinada à exportação, a BFruit trabalha com mercados particularmente exigentes, como Reino Unido e Alemanha, o que obriga ao cumprimento de regras muito rigorosas. Embora reconheça a importância de algumas restrições, a produtora lamenta a falta de alternativas eficazes ou economicamente viáveis. “Tem de haver um equilíbrio” entre preocupações ambientais e a compreensão efetiva da realidade agrícola.
Na procura de soluções, a empresa tem apostado em conhecimento. Dotada de uma equipa técnica multidisciplinar e dois centros de investigação, a BFruit desenvolve trabalho genético para criar variedades mais adaptadas e resistentes, ao mesmo tempo que testa soluções biológicas e alternativas que permitam reduzir o uso de fitofármacos.
Gonçalo Batista expressa a mesma preocupação com a perda de soluções fitossanitárias, em resultado das políticas europeias no âmbito do “prado ao prato”, que têm retirado do mercado várias substâncias ativas consideradas prejudiciais ao ambiente. A ausência de alternativas deixa os agricultores com “menos ferramentas” para o combate de doenças e pragas, dificultando a produção e pressionando ainda mais a sustentabilidade económica da atividade.
Água incerta preocupa
A água é outro dos grandes temas da produção agrícola. Em Odemira, a seca impôs restrições na distribuição de água. A precipitação do último inverno permitiu aliviar parte da pressão, mas a incerteza climática preocupa os agricultores. Para Fernanda Machado, o investimento em infraestruturas de retenção e armazenamento de água poderia evitar situações de escassez. “Neste momento, não é um problema. Mas será cíclico se os políticos não fizerem nada novamente e deixarem de investir na recuperação das infraestruturas existentes desde 1960”, apela a produtora.